O LINDO RINCÃO NATAL DE SANTOS-DUMONT

Lauret Godoy*

 

Após ler o livro Uma Cidade à Beira do Caminho Novo, do jornalista, pesquisador e escritor de Santos Dumont, o senhor Oswaldo Henrique Castello Branco, e efetuar algumas pesquisas relacionadas ao assunto, escrevi um texto sobre a cidade onde nasceu Alberto Santos-Dumont.  Desejo compartilhá-lo, com a certeza de que os admiradores do Patrono da Aeronáutica Brasileira gostarão de conhecer um pouco mais, sobre aquele pedaço de terra mineira. Confesso que a grande maioria dos ingredientes foi fornecida por historiadores que me antecederam, mas o tempero, asseguro, é da minha própria casa...

 

       No dia 27 de julho de 2016, o município de Santos Dumont comemorou 127 anos da sua emancipação política. Trata-se de uma comunidade que foi sesmaria, passou a fazenda, transformou-se em arraial, distrito, assim foi caminhando e sendo, pouco a pouco, promovida por merecimento. Finalmente, chegou à condição em que se encontra nos dias atuais, atrevendo-se até a imitar a bela Paris. Com a miniatura bonita e iluminada da Torre Eiffel, Santos Dumont pode ser considerada “A Pequena Cidade Luz da Mantiqueira”.

         Mas a vida de uma cidade jamais existirá isoladamente. Estará sempre ligada a outros fatos e são eles que concederão força e colorido à sua existência. Por isso, neste passeio através do tempo, sinto necessidade de dar um alinhavo, mesmo que seja a largos pontos, sobre a história do Brasil. E a minha história começa no momento em que, movidos pela esperança e pelo espírito de aventura, navegadores portugueses passaram a singrar os mares, procurando novas terras.   E encontraram um país de extensas praias, banhado pelo Sol, onde um lindo céu azul serve de moldura perfeita para o verde das matas e o colorido das flores. Onde a sinfonia dos pássaros dá alegria e vida à paisagem, onde as estrelas e o Cruzeiro do Sul brilham com mais intensidade nas noites de lua nova. E onde o prateado luar inebria os corações românticos.

         Portugal tornou-se o dono da terra descoberta, que passou a receber indesejáveis visitas de estrangeiros. Era necessário defendê-la desses ataques e proteger os metais e pedras preciosas que, por certo, aquele bendito solo possuía. Para a colonização, o Brasil foi dividido em quinze donatárias ou capitanias, e os reis de Portugal doaram a indivíduos cristãos, lotes de terras denominados sesmarias, para que os sesmeiros transformassem terras incultas em solo cultivado e povoado. Teve início o plantio da cana-de-açúcar, veio depois o café, e desenvolveu-se a pecuária.

         Após quase 200 anos do descobrimento, as histórias de Brasil e Portugal seguiam nesse passo. Na passagem dos séculos XVII e XVIII, ricas jazidas de ouro foram descobertas na região centro-sul do Brasil. Bandeirantes paulistas seguiram o roteiro das riquezas e abriram o Caminho Velho, ligando São Paulo à região das minas, passando pelo Rio de Janeiro. Mas era preciso ir do Rio para as Minas com muito mais rapidez. Então, entre 1700 e 1701, teve início a abertura da picada que originou o Caminho Novo, diminuindo a viagem de três meses, para 15 dias. E o Caminho Novo, frequentado por tropeiros que iam e vinham, aos poucos viu os homens fixarem-se ora aqui, ora ali, começando a formar os primeiros povoados.

         Se na época os portugueses buscavam o Brasil para o enriquecimento material, os brasileiros iam no sentido inverso, para encontrar na famosa Universidade de Coimbra, a riqueza intelectual. Um desses brasileiros foi o santista Bartolomeu Lourenço de Gusmão, que realizou em Lisboa a primeira experiência pública bem sucedida de um balão a ar quente, transformando-se no primeiro cientista das Américas e abrindo o caminho para a conquista do espaço aéreo. Ele escreveu os perigos constantes e terríveis, com que se defrontavam aqueles que faziam a travessia do Atlântico. No famoso sermão em homenagem a Nossa Senhora do Desterro, disse Gusmão: “Já se levanta uma tormenta que é o horror. Tolda-se o céu enfurecem-se os ventos, estremece a popa açoitada com a fúria das ondas. As velas vão a pedaços pelos ares... Que gritos! Que desordens! O piloto perde o tino, o marinheiro não sabe onde socorra e o miserável passageiro esmorecido, atônito, pálido e frio, vê a borda da nau submergida debaixo das ondas e o centro do abismo parece que está, por instantes, tragando-o” (...)

         O perigo do naufrágio, o medo das enfermidades, a incerteza de chegar sãos e salvos ao Brasil, eram enfrentados pelos que se aventuravam a cruzar os mares. Um deles foi Domingos Gonçalves Ramos, o primeiro português a requerer, no ano de 1709, uma sesmaria em larga extensão da terra atravessada pelo Caminho Novo. Perigo idêntico enfrentou João Gomes Martins, natural de Braga, uma cidade localizada ao Norte de Portugal e conhecida como Roma Portuguesa, por sua concentração de arquitetura religiosa. Nascido em 26 de fevereiro de 1685, aos 43 anos de idade, esse português de Braga adquiriu a sesmaria da qual se originou a Fazenda João Gomes, atual cidade de Santos Dumont.

         João Gomes instalou-se nas terras com sua mulher Clara Maria de Melo, em 1728, e logo mandou construir uma capela para abrigar a imagem de São Miguel e Almas, trazida de Portugal. O casal teve quatro filhos: Francisco, Manoel, Ana e José.  João Gomes adquiriu outras terras, dedicou-se a atividades comerciais e, quando faleceu, em 1745, a Vila Campestre João Gomes progredia, acompanhando o ritmo alegre das águas do Ribeirão das Posses.

         A partir de 1780 a região passou a ser visitada por quadrilhas de salteadores. As riquezas minerais eram por ali transportadas, provocando roubos, assaltos e mortes. E a Mantiqueira, palavra indígena que significa Morada das Nuvens, transformou-se em morada do medo e do perigo. Dois homens uniram-se para levar paz ao caminho das minas: o coronel José Ayres Gomes, filho de João Gomes, e o alferes Joaquim José da Silva Xavier. Nessa época, colônias libertavam-se de seus dominadores, os países sofriam transformações e um mundo diferente exigia homens diferentes. No Brasil começaram a aparecer os primeiro movimentos rebeldes, objetivando a independência do país e a instauração da república.  Os mineiros articulavam-se. Era preciso incentivar as manufaturas, que estavam proibidas, e fundar uma universidade em Vila Rica, atual Ouro Preto.  A Inconfidência Mineira tomou vulto e surgiu a bandeira com o lema LIBERTAS QUAE SERÁ TAMEN – Liberdade ainda que tardia. E era pelo Caminho Novo que os inconfidentes transitavam e confabulavam. Dois deles, o coronel José Ayres Gomes e o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que já haviam livrado a região dos salteadores, passaram a ansiar por livrar o Brasil de outros algozes. Não tiveram êxito, mas a ideia estava lançada e a independência foi proclamada em 7 de setembro de 1822.

         Passaram-se os anos, as estradas de ferro começaram a cortar o país, e o progresso também chegou à Mantiqueira. E o mesmo Caminho Novo, que aproximara o Rio de Janeiro das Minas Gerais, serviu de base para o traçado da estrada de ferro D. Pedro II, mais tarde Central do Brasil. E foi ela que levou para o distrito de João Gomes, o engenheiro Henrique Dumont, que se instalou com a família numa casa da ferrovia, mais precisamente no sítio de Cabangu, onde nasceu, em 20 de julho de 1873, Alberto Santos-Dumont.

         Quanto ao Distrito de João Gomes, em 1880 a fundação do Grêmio Recreativo e Literário João Gomes, agitou a vida social, recreativa e intelectual da localidade. Ali se reuniram ilustres homens e, das conversas e articulações, ocorreu a concretização do sonho maior da população: o barão de Ibituruna, baixou em 27 de julho de 1889 a lei n.º 3712, elevando a Freguesia de João Gomes, à categoria de Vila, com o nome de Palmira. Mas, por que Palmira?  Um abaixo assinado pedia que o nome fosse Vila Independência, mas o parlamentar que defendeu a denominação, associou-a à heroica e poderosa Palmira, ou “Cidade das Palmeiras”, situada no Oriente, na antiga Zenóbia, entre Damasco e o Eufrates. O orador convenceu e foi assim que, cavalheirescamente, o lusitano João Gomes cedeu lugar à oriental Palmira. Nessa época o Brasil passava por grandes mudanças. Em 1888 fora decretada a abolição da escravatura, em 1889 proclamada a República e, em 15 de novembro de 1890, com a posse da intendência, o Município de Palmira foi instalado oficialmente.

         Chegou-se ao século XX e, do outro lado do mundo, um jovem natural do distrito de João Gomes conquistou o mundo com suas fantásticas máquinas voadoras. Tornou-se, na primeira década do novo século, a mais popular figura de Paris. Enfeitou os céus da cidade-luz com seus dirigíveis e, neles, a flâmula verde e amarela, a anunciar que ali estava um brasileiro. A grande consagração desse jovem brasileiro ocorreu em 1906. Alberto Santos-Dumont provou para o mundo que acabara de inventar o avião, elevando o aparelho do solo, com recursos da própria máquina, sem auxílio de qualquer outra espécie.

         Enquanto isso, na cidade de Palmira, teve início a criação de gado holandês, depois surgiu a primeira fábrica de coalho do Brasil e a primeira indústria de laticínios da América do Sul. Ah! O queijo Palmira! Tão famoso, quanto saboroso! Em 1912 foi fundada a Companhia Brasileira de Carbureto de Cálcio, pioneira no Brasil em produção de ferro-ligas. Muitos homens ajudaram a construir e administrar a cidade. Mencionar um deles será cometer injustiça com os demais, pois o mérito sempre será de muitos e jamais de apenas um. O fato é que a cidade manteve-se como Palmira por 43 anos. Falecido em 23 de julho de 1932 o seu mais ilustre filho, uma semana mais tarde a cidade passou a se chamar Santos Dumont, graças ao empenho e trabalho de Oswaldo Henrique Castello Branco.

Estamos no ano de 2016 e a imagem de São Miguel e Almas, trazida para o Brasil há quase três séculos, está na igreja matriz de Santos Dumont, porque São Miguel tornou-se o padroeiro da cidade. Ela é testemunha da marcante presença de João Gomes, homem corajoso e empreendedor, que deixou a todos um consistente exemplo de perseverança, de trabalho e de fé, porque a semente que ele lançou naquele pedaço da Serra da Mantiqueira, permanece viva até hoje.

         Ao concluir, desejo aclamar dois grandes homens: um que lançou a pedra angular sobre a qual se construiu a mineira cidade de Santos Dumont, e outro, que ajudou a projetá-la nos céus do mundo inteiro:

 

VIVA JOÃO GOMES,

VIVA ALBERTO SANTOS-DUMONT!

 

* Lauret Godoy é autora do livro BRASILEIROS VOADORES - 300 Anos Pelos Céus do Mundo.

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